A Rainha de Sabá! Quem terá sido exatamente essa soberana misteriosa e mítica, que, movida por uma sadia curiosidade, viajou mais de quatro mil quilômetros – naqueles tempos em que nada ou quase nada havia para fazer de uma viagem tão longa um trajeto suportável – a fim de encontrar-se com o magnífico Rei Salomão?

Com camelos carregando preciosos presentes, como ouro, especiarias e pedras de grande valor, seu objetivo era testar a célebre sabedoria de Salomão com difíceis enigmas. Seu nome repousa até hoje no anonimato e o Livro dos Reis apenas relata que ela se deslocou de seu reino distante, localizado no nordeste da África ou na Península Arábica, provavelmente onde hoje fica a Etiópia ou o Iêmen, para conhecer a sabedoria do reino de Israel, em Jerusalém, e que, muito impressionada com as sábias respostas que obteve, com a exuberância do palácio real e com a organização do reino, partiu de volta para sua pátria.
Tomada como prefigura de Nossa Senhora, essa Rainha personaliza uma das virtudes mais rutilantes da alma nobilíssima de Maria Santíssima: a admiração.

Virtude muito especialmente ligada à caridade e praticada quando reconhecemos, aceitamos e amamos a hierarquia colocada por Deus na Criação, tanto na ordem temporal quanto na espiritual, a admiração está também intimamente ligada à humildade. Com efeito, ao aceitarmos a superioridade dos maiores e dobrarmos diante deles nosso espírito com alegria, estaremos abrindo os umbrais de nossa alma para que nela se efetue a necessária purificação para vermos a Deus.
Assim, exatamente, aconteceu com a Rainha de Sabá. Ao encontrar-se com o Rei Salomão e propor-lhe os enigmas, não apenas admirou-se de sua sabedoria, de sua riqueza, de suas vestes, da beleza e organização de sua corte, mas logo alçou seu espírito ao Deus de Salomão. E, na admiração, foi se dignificando e elevando.

É natural no espírito humano a admiração. Observando alguém com dons que não possuímos – qualidades físicas, como voz angélica, senso artístico primoroso, agilidade, ou qualidades espirituais, como sabedoria, piedade, retidão, fortaleza – num primeiro momento nos encantamos. Imediatamente depois surge uma pergunta: “E eu? Sou assim? Sou capaz disso?” É nesse momento que aflora a comparação. Se nos desgarrarmos do amor-próprio e com generosidade nos aplicarmos à contemplação, aquela qualidade passa a habitar em nós por uma espécie de coparticipação. Se, no entanto, a revolta escurecer os olhos da alma, os germes da inveja apressar-se-ão em forçar as suas barreiras e aí se desenvolverão.

Há mais um ponto importante a ponderar: a admiração não se limita apenas a ver os lados bons e superiores dos outros, mas – todos os homens somos concebidos no pecado original – esforça-se, no meio de um lodaçal de lados ruins, para ter toda a consideração e afeto pelas características sadias e conviver com as qualidades.
Em geral, essa virtude é facilmente praticada quando nos reportamos aos que estão acima de nós. Entretanto, mais difícil será se tivermos que exercê-la em relação aos que nos são iguais. E é justamente nessa circunstância que se encontrará seu mais íntimo valor. Será no convívio comum e diário que ela florescerá. Portanto, é por ela que se estabelecerá o convívio sacral belamente expresso pelo Salmo: “Ecce quam bonum et quam jucundum habitare fratres in unum – Eis como é bom, como é agradável viverem os irmãos em unidade”. (Sl 133, 1)

Para termos certeza de que somos admirativos, basta vermos se estamos sempre alegres, porque a admiração causa alegria, e a sua ausência, pesada tristeza. A busca contínua e bem orientada do que admirar é o melhor antídoto contra a má tristeza, como sempre repetia Mons. João Clá Dias às suas filhas espirituais. Outra máxima que ele também nos deixou é esta: “A admiração nos faz merecer um olhar de Nosso Senhor. Nada atrai mais a Deus do que uma alma admirativa.”
E aquele que é admirado também humildemente deve corresponder ao amor que lhe é demonstrado, voltando-se com generosidade, prezando com despretensão aquele culto que suas qualidades merecem, mas sabendo que, se as possui, é porque de seu Criador e Redentor as recebeu. Se ele rejeitar essa homenagem, estará calcando aos pés a si próprio. Provavelmente o Rei Salomão aceitou a admiração que a Rainha de Sabá lhe prodigalizava e, agradecendo ao seu Criador, encheu-se de consolação: “É um dom de Deus uma mulher sensata e silenciosa, e nada se compara a uma mulher bem-educada, pois a graça de sua modéstia vale mais do que o ouro. Feliz será quem a conhecer!”

Finalmente, “a alma aberta à admiração é aberta a todas as estrelas, a todos os sóis. A alma fechada à admiração está entregue a si mesma. Da alma invejosa, então… Esta apedreja, insulta as estrelas”[1].
No meio das riquezas de seu país e do fausto de sua própria corte, a Rainha de Sabá deu a Deus o que lhe era pedido: um grande desprendimento para apontar para o outro e mostrar que ele era mais.
Como deve ter saído mais embelezada, mais perfumada, mais rica, mais ordenada, mais alegre, enfim, mais sábia, a alma da Rainha de Sabá: “⁶E disse ao rei: Foi verdade a palavra que ouvi na minha terra, das tuas coisas e da tua sabedoria.⁷ E eu não cria naquelas palavras, até que vim e os meus olhos te viram; eis que não me disseram metade; sobrepujaste em sabedoria e bens a fama que ouvi. ⁸Bem-aventurados os teus homens, bem-aventurados estes teus servos que estão sempre diante de ti, que ouvem a tua sabedoria! ⁹ Bendito seja o Senhor, teu Deus, que teve agrado em ti, para te pôr no trono de Israel; porque o Senhor ama Israel para sempre; por isso, te estabeleceu rei, para fazeres juízo e justiça”. (1Reis 10,6-9)
[1] Revista Dr. Plinio, n. 312, março de 2024

