Interrompendo o agradável convívio com as irmãs de vocação e com Deus, que se estabelece todas as noites após o jantar, as irmãs ouvem a voz do sino chamando-as para a oração de Completas. As religiosas vão findando a conversa, os últimos risos vão se apagando e lentamente todas se reúnem na capela. Aos poucos, a tênue luminosidade do ambiente, o silêncio que se estabelece no sagrado recinto, as velas do altar acesas e até os passos dados com cautela predispõem as almas para um particular encontro. Com quem? Consigo mesmas. Chegou a hora de examinar a consciência.
O que é a consciência?
A consciência, essa bendita luz, de retidão imutável, que permite ao homem examinar se suas obras são boas ou más, é uma grande aliada no caminho da santificação, desde que a consultemos com frequência. São Tomás de Aquino explica-a com a simplicidade e clareza próprias de seu espírito: “Para que possa haver retidão nos atos humanos, é necessário que haja neles um princípio permanente, de uma retidão imutável, à luz do qual sejam examinadas todas as obras do homem, e que seja de tal sorte que esse princípio permanente resista a tudo o que é mau e dê seu assentimento a tudo o que é bom. Esta é a sindérese, cuja função é desaprovar o mal e inclinar ao bem; deve-se conceder ainda que a sindérese não pode pecar.”[1]
Os breves minutos diários destinados a examiná-la devem, portanto, ser seriamente aproveitados, porque, para bem conhecer seu interior, o homem precisa aprofundar-se no julgamento de suas ações e ir até as raízes de maldade que o conduziram ao pecado. Como o tempo desse exame na recitação de Completas é breve, convém escolher uma má tendência ou um vício específico para examinar e, consequentemente combater, a fim de avançar no caminho da perfeição.
Obstáculos para um bom resultado
Naturalmente o homem é avesso ao seu próprio julgamento; ademais, muitas vezes não lhe agrada – até por temperamento – a reflexão, instrumento indispensável para um bom exame de consciência. Para superar essas dificuldades é preciso enfrentá-las com coragem e agir contrariamente a elas; então, fazer um esforço para refletir e julgar com rigor os próprios atos.

Se esse exame for feito à luz da Doutrina Católica, tendo como código de conduta os Dez Mandamentos, os conselhos evangélicos, as bem-aventuranças, os votos emitidos, facilmente se lerá, no painel claríssimo da consciência, as próprias faltas. Ora, isso que tão prontamente se vê, não é tão rapidamente que se aceita. O homem, depois do pecado original, é tomado por um amor-próprio que o leva sempre a desviar a atenção de seus defeitos e fugir de ver-se tal qual é. Por outro lado, o inimigo da salvação tem todo interesse em criar empecilhos, distrações, dissabores, sono, enfado durante os curtos instantes em que se dedicam a isso essas almas privilegiadas que, por terem se oferecido a Deus por toda a vida, são convocadas para a tarefa dura de ver-se face a face com sua consciência, por pelo menos 3 minutos cada dia…
Esses entraves, se não combatidos energicamente, conduzem a alma a banalizar o exame de consciência e a encontrar nele apenas “faltas leves” às quais não se dá muita importância e que, na hora da Confissão, sequer são lembradas. Outras vezes, pode-se imaginar que não há necessidade desse exame, uma vez que um religioso – supõe-se – frequentemente recorre ao Sacramento da Confissão. Outras vezes se dirá que não há necessidade de perscrutar tanto nosso dia a dia, pois só os santos conseguem isso, e como não somos santos…
Enfim, o demônio tentará toda espécie de pensamentos – até onde Deus lhe permitir – que desviem o fiel de seu objetivo: o aperfeiçoamento rumo à santificação.
Será então o momento de recorrer ao auxílio e proteção de Nossa Senhora, que ajudará a alma a escalar a íngreme montanha da perfeição. Ela é a criatura escolhida por Deus para derrotar o demônio; deve-se, então, pedir a Ela que mais uma vez o vença, dando-nos graças para o afastarmos de nós.
O exame de consciência e o vício capital
Todos os homens, depois do pecado original, têm, entre as más tendências herdadas de seus primeiros pais, uma que é o eixo de todas as suas dificuldades para alcançar a salvação, aquela que diminui a influência das demais e nos domina, ditando o rumo do nosso comportamento. É, pois, de grande utilidade conhecê-la, e, durante o exame diário, colocá-la em foco, porque, uma vez descobertas as suas artimanhas, que soem estender suas sombras sobre todas as nossas ações, com facilidade identificamos as faltas cometidas e suas raízes.
A indispensável humilhação

Enfim, tendo identificado as faltas, é a hora de reconhecer seriamente que somos responsáveis por elas, descartando a responsabilidade dos outros. Assim, o inclinar-se, bater no peito recitando o Confiteor, torna-se realmente um ato de humilhação que torna a alma luzidia, serena, bondosa. E então as palavras dessa oração tomam todo e seu significado, porque são o reconhecimento em público de que pecamos e nosso pedido de perdão.

